Que merda é esta pá, o Chega fez o quê?
Um registo simples e com fontes de toda a traulitada que o partido de extrema-direita que mais cresce em Portugal tem feito desde 2019.
O Partido Chega, oficialmente estilizado CHEGA!, foi fundado em abril de 2019 por André Ventura, antigo professor de direito e comentador de futebol que já tinha concorrido à câmara de Loures pelo PSD. Nas primeiras eleições ganhou um único lugar. Em 2025 já tinha 60 deputados na Assembleia da República e tinha-se tornado o segundo partido mais votado do país. Em 2026 Ventura candidatou-se à presidência e ficou em segundo com 23,5% dos votos.
Este não é um partido que foi mal compreendido, pá. É um partido que foi muito bem compreendido e muita gente votou nele na mesma. Este site existe para pôr no papel, com fontes e sem papas na língua, toda a merda que este partido fez, disse e propôs. Tira as tuas conclusões.
Criei este site porque? Porque há uma necessidade de documentar e expor a realidade política que o Chega tem criado em Portugal. Quero que as pessoas possam ver com os próprios olhos todas as ações, palavras e propostas que têm sido feitas por este partido. Ah, e também porque o dominio tava disponível.
Wikipedia — Chega (political party)
Desde o primeiro dia que o Chega construiu a sua marca em grande parte a atacar a comunidade cigana em Portugal. Ventura fez comentários inflamatórios sobre os ciganos durante a campanha autárquica de Loures em 2017, o que resultou numa queixa-crime do Bloco de Esquerda e na retirada do apoio do CDS. Não o abrandou nada.
Em 2020, durante a pandemia de COVID-19, Ventura propôs um plano de confinamento específico, só para ciganos. Foi publicamente chamado a terreiro pelo futebolista Ricardo Quaresma, de ascendência cigana.
Heidi Beirich, co-fundadora do Global Project Against Hate and Extremism, disse em 2023:
"O Chega é um partido profundamente anti-imigração, anti-cigano e anti-LGBTQ. Demonizam os imigrantes. A sua liderança, incluindo o carismático André Ventura, disse coisas horríveis sobre os ciganos, chamando-lhes um problema de segurança, entre outras coisas."
Beirich também referiu que Ventura promoveu a teoria conspirativa do "grande replacement", a ideia supremacista branca de que os imigrantes estão a substituir a população nativa. Tipo, esta gente não se esconde nada.
Euronews — How far-right extremism seeped into Portugal's mainstream politics (2023)
Não é só crítica, pá. Um tribunal português condenou mesmo o Ventura. Em setembro de 2021 foi condenado por segregação social depois de, num debate televisivo, ter mostrado uma fotografia do Presidente da República no Bairro da Jamaica, um bairro pobre maioritariamente negro em Amora, no distrito de Setúbal, e ter chamado aos moradores negros na foto "bandidos". O Supremo Tribunal confirmou a condenação.
Antes disso, Ventura tinha sido multado duas vezes pela Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação (CICDR) por comentários dirigidos aos ciganos, incluindo associar, sem qualquer prova, a comunidade cigana a uma agressão a uma enfermeira em Beja.
CNN — Portugal election: 'We are not extremist', says the radical right (2024)
openDemocracy — Portuguese courts vs the racist Chega party (2021)
Durante a campanha presidencial de Ventura para 2026, um tribunal de Lisboa ordenou ao Chega que removesse cartazes de campanha dirigidos à comunidade cigana no prazo de 24 horas. Cada dia de incumprimento, ou cada cartaz novo que aparecesse, custaria 2.500 euros ao Ventura.
A juíza argumentou que Ventura admitiu em tribunal saber que existem ciganos que cumprem a lei, mas insistiu na sua convicção de que nenhum o faz. O acórdão foi claro:
"O arguido não pode desconhecer que a sua convicção assenta em ideias discriminatórias e ataca uma minoria étnica."
A resposta de Ventura à decisão foi dizer que era "um sinal de que a democracia está a ir por um mau caminho." Não disse que ia parar. Claro que não.
O Chega opõe-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, opõe-se aos direitos das pessoas trans e opõe-se ao que chama de "propaganda LGBTQ+". Os seus deputados descreveram a ideologia de género como um ataque marxista à civilização cristã. Uma deputada do Chega declarou-se anti-feminista numa entrevista televisiva e ficou toda a gente de boca aberta, mas lá está, é o partido que é.
A plataforma do partido defende papéis de género tradicionais e enquadra a homossexualidade e a identidade de género como ameaças à família e à cultura portuguesa. Não é uma posição de uma franja minoritária dentro do partido, está no programa oficial.
Wikipedia — Chega (political party)
SAGE Journals — Gendered positions within Chega (2025)
Leste bem. No congresso do partido em 2020, os militantes aprovaram uma moção que pedia a remoção dos ovários das mulheres que abortassem. Ventura, perante a indignação pública, pediu depois que a moção fosse abandonada.
O facto de esta moção ter sido aprovada sequer, e de ter sido precisa pressão pública para a liderança se distanciar, diz tudo sobre quem está neste partido e o que pensa sobre os corpos das mulheres. Que horror de gente, a sério.
O Chega opõe-se oficialmente ao aborto em todos os casos. O programa enquadra-o como uma violação dos valores cristãos e da lei natural.
Wikipedia — Abortion in Portugal
O Chega quer trazer de volta a pena de morte. Num referendo interno do partido em 2020, 44% dos militantes votaram a favor de reintroduzir a pena capital para crimes como terrorismo e abuso de menores. Portugal aboliu a pena de morte em 1867 para crimes civis e tem-na constitucionalmente proibida desde 1976. O Chega quer reverter isso.
O partido propõe também castração química para violadores reincidentes e penas de prisão perpétua. Não são ideias de uma franja, estão na plataforma oficial do partido. Fica aí a pensar.
Wikipedia — Capital punishment in Portugal
Wikipedia — Chega (political party)
O slogan do Chega, "Deus, pátria, família e trabalho", é uma cópia direta e elaborada de "Deus, pátria, família", o slogan do Estado Novo, a ditadura fascista de António de Oliveira Salazar que governou Portugal de 1933 a 1974. Não é coincidência, claramente.
O historiador José Pacheco Pereira acusou publicamente Ventura de "justificar a ditadura" num debate em abril de 2026 na CNN Portugal, argumentando que ao fazer equivalências entre a ditadura e o que veio depois de 1974, Ventura estava a tomar efetivamente o partido da era pré-democrática. A resposta de Ventura? Disse que queria que Portugal tivesse "uma democracia plena." Não negou a equivalência.
Ventura disse também que o regime de Salazar "atrasou-nos em vários aspetos", o que parece crítico até perceberes que o enquadramento compara-o neutralmente à democracia que se lhe seguiu, como se fossem dois governos diferentes com os seus prós e contras. Olha que coragem, pá.
Jornal de Notícias — Pacheco Pereira acusa Ventura de "justificar a ditadura" (2026)
Wikipedia — Chega (political party)
Em maio de 2024, Antonio Tanger Correa, cabeça de lista do Chega para o Parlamento Europeu e antigo embaixador de Portugal em Israel, sugeriu numa entrevista que os judeus tinham sido avisados antes dos ataques do 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque. Foi eleito para o Parlamento Europeu em julho de 2024 na mesma. Fantástico.
U.S. State Department — 2024 Country Reports on Human Rights Practices: Portugal
No início de 2025, Ivo Faria, um candidato do Chega de 27 anos que concorreu nas autárquicas de 2025 à União de Freguesias de Antime e Silvares, em Fafe, foi detido em flagrante delito por suspeita de pornografia de menores, abuso sexual de crianças agravado e devassa da vida privada. As vítimas incluíam a sua própria filha pequena e a companheira.
O Chega expulsou-o. O Ventura fez uma conferência de imprensa para se dar palmadinhas nas costas pela rapidez com que agiram. Depois queixou-se de que a imprensa estava a tratar o Chega de forma injusta comparativamente a casos semelhantes noutros partidos. É sempre assim com eles.
Sábado — Ventura explica expulsão de candidato acusado de pedofilia (2025)
O Chega aderiu ao grupo parlamentar Identidade e Democracia no Parlamento Europeu em julho de 2020, um bloco de extrema-direita que inclui o Reagrupamento Nacional de Marine Le Pen (França), a Lega de Matteo Salvini (Itália) e Alternativa para a Alemanha.
Ventura assinou a Carta de Madrid, um documento elaborado pelo partido espanhol de extrema-direita Vox que enquadra os grupos de esquerda como inimigos da Ibero-América a operar sob a influência do regime cubano.
O ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro expressou publicamente apoio mútuo ao Chega. Marine Le Pen foi a Lisboa apoiar pessoalmente a candidatura presidencial de Ventura em 2021. Com estes amigos todos, não é preciso explicar mais nada, pá.
Wikipedia — Chega (political party)
As propostas constitucionais do Chega incluem: abolir o cargo de Primeiro-Ministro e substituir o sistema atual por uma república presidencial, reduzir a Assembleia da República de 230 para 100 deputados, remover as "garantias materiais" da constituição que impedem certas alterações de serem feitas de todo, e exigir que o Primeiro-Ministro seja cidadão português de nascimento.
Este último ponto impediria, convenientemente, um grande número de cidadãos portugueses naturalizados de alguma vez liderarem o país.
Ventura chamou a esta visão uma "Quarta República." A constituição atual, em vigor desde 1976 após o fim da ditadura Salazar-Caetano, inclui proteções construídas especificamente para evitar outra tomada de poder autoritária. O Chega quer remover essas proteções. Faz sentido, não faz?
Wikipedia — Chega (political party)
Ventura escreveu nas redes sociais que uma colega deputada, com dupla cidadania portuguesa e guineense, devia "regressar ao seu próprio país." Esta deputada é membro eleito do parlamento português, representa cidadãos portugueses e nasceu em Portugal.
O Chega negou que isto fosse racismo. Claro que sim.
CNN — Portugal election: 'We are not extremist', says the radical right (2024)
COSPOLON — What is Chega and Who is Ventura? (2025)
Em 2019, o Chega conseguiu um lugar. Em 2024 conseguiu 50. Em 2025 conseguiu 60 e tornou-se o segundo partido mais votado de Portugal. Ventura candidatou-se à presidência em 2026 e ficou em segundo com 23,5%.
Os investigadores dizem que nem toda a gente que vota Chega é supremacista branco ou anticigano. Há quem vote por protesto, genuinamente farto da corrupção dos partidos do costume. Há imigrantes socialmente conservadores que partilham as posições do Chega sobre o aborto e os direitos LGBTQ+ mas não necessariamente a retórica anti-imigração. Há jovens que se sentem deixados para trás economicamente e compram o branding anti-sistema.
Mas nada disso muda o que o partido é, o que propõe e o que fez. Podes votar num partido pela razão que quiseres. O historial do partido é o historial do partido. É disso que trata este site.
Como disse o ex-líder do PSD Luís Montenegro num debate televisivo em 2024: Ventura é "xenófobo, racista e demagógico."
Wikipedia — Chega (political party)
Euronews — How far-right extremism seeped into Portugal's mainstream politics (2023)
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